Crónica da Bolsa de Afetos: Sobre as Vantagens Comparativas do Amor e a Bancarrota do Divórcio

Observo, nos cafés e nos escritórios desta cidade, a dança frenética dos afetos, e concluo, com a melancolia de um naturalista a observar a extinção de uma espécie, que o romance morreu. Não foi uma morte aparatosa; foi antes uma aquisição hostil. A linguagem da Faria Lima, com a sua lógica de ferro e a sua moral de planilha, invadiu o último reduto do irracional humano e transformou o amor numa joint venture. Recordo-me de uma anedota, que se conta como uma lenda nos corredores do poder financeiro, sobre uma jovem e bela dama que escrevera ao editor do Financial Times (ou a um banqueiro de Wall Street, a entidade pouco importa, pois o espírito é o mesmo). A sua proposta era um negócio, de uma honestidade brutal: a sua beleza, no auge do seu valor, em troca do acesso ao património de um homem rico. A resposta do editor, diz-se, foi uma obra-prima de cinismo e de clareza económica. Agradeceu a oferta, mas recusou o negócio. Explicou, com a paciência de um analista, que a beleza da dama era um ativo em depreciação, cujo valor diminuiria drasticamente a cada ano que passava. O seu património, pelo contrário, era um ativo em apreciação, com tendência a crescer. Seria, portanto, um péssimo negócio comprar um ativo que se desvaloriza. Sugeriu, com uma lógica impecável, que um contrato de "aluguer" (um namoro) seria mais sensato do-que a "aquisição definitiva" (o casamento). O que na altura pareceu uma crueldade, hoje revelou-se uma profecia. Vivemos todos sob a égide daquela carta. O amor já não é um mistério, é um mercado. E o seu princípio regente é o das vantagens comparativas. O homem e a mulher modernos já não se unem pela promessa de um "para sempre" que soa a disparate. Unem-se como duas empresas que buscam sinergias. Cada um entra na relação como um CEO de si mesmo, com um balanço de ativos (aparência, rendimento, estatuto, bom humor) e de passivos (dívidas, traumas de infância, o facto de ressonar). E procura-se um parceiro que possua uma vantagem comparativa naquilo que nos falta. "Eu produzo estabilidade financeira com grande eficiência", diz um. "E eu produzo beleza e capital social", diz o outro. "Trocamos?" O contrato é assinado com um "eu amo-te". Mas ambos os sócios sabem que a cláusula mais importante é a da rescisão. E aqui entra o divórcio, essa grande instituição da modernidade. O divórcio deixou de ser uma tragédia para se tornar numa mera correção de mercado. É a recuperação judicial da empresa "Casamento & Cia. Lda.". Quando um dos sócios percebe que as vantagens comparativas do outro já não compensam, ou quando surge no mercado uma oportunidade de fusão mais lucrativa (uma secretária mais nova, um diretor mais rico), o contrato é simplesmente dissolvido. Liquidam-se os ativos, partilham-se os prejuízos e ambos voltam ao mercado, agora como produtos "usados", com a sua cotação ajustada pela experiência. Conquistámos, sem dúvida, a mais perfeita liberdade de transação nos afetos. Somos todos livres para procurar o melhor negócio, para otimizar o nosso portfólio emocional. Mas nesta bolsa de valores da alma, onde todos os corações têm um preço e todas as promessas um prazo de validade, o que foi que perdemos? Perdemos talvez a única coisa que não tem valor de mercado, mas que é a única que nos salva: a lealdade irracional, a promessa sem garantias, o amor que é um péssimo negócio. Ganhámos a eficiência de sermos os nossos próprios gestores de carteira no amor, mas condenámo-nos a viver numa perpétua análise de risco, a calcular o balanço do nosso próprio coração. E que pobre e solitário negócio é esse.

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