Crónica do Senhor Feudal de Apartamento: Fantasias e Realidades dos Fundos de Tijolo
Daqui da minha janela, contemplo a paisagem desta cidade, uma floresta de "tijolo" que se ergue até aos céus com uma ambição quase insolente. Estes edifícios, estes centros comerciais, estes armazéns logísticos são a mais sólida e brutal manifestação de capital que existe. E, no entanto, a mais recente maravilha do nosso mercado financeiro consiste em pegar nesta solidez toda e transformá-la num fantasma, num espectro de papel negociado em bolsa. Falo, claro, do Fundo de Investimento Imobiliário.
Que invenção prodigiosa! É a realização do mais profundo e atávico sonho da alma luso-brasileira: o sonho de ser proprietário, de "viver de rendas". Mas agora numa versão para o pequeno burguês moderno, uma versão de bolso, sem os inconvenientes da vida real.
Eis que nasce a figura do Senhor Feudal de Apartamento. É o cidadão comum que, do conforto do seu apartamento de 70 metros quadrados, abre o aplicativo da corretora e passa em revista os seus vastos domínios. Com três cliques, ele inspeciona o seu ducado: uma fração de 0,0001% de um shopping center no Paraná, dois metros quadrados de um galpão logístico em Pernambuco e uma cadeira na praça de alimentação de um edifício comercial na Faria Lima.
Ele não conhece os seus inquilinos, a quem chama elegantemente de "locatários". Não se preocupa com uma goteira no teto ou com o imposto predial. Mas fala da "taxa de vacância" e do "cap rate" dos seus "imóveis" com a gravidade de um barão do café a discutir a colheita. É um latifundiário de poltrona, um proprietário sem propriedade, um senhor sem senhorio. É a mais pura e deliciosa das fantasias.
A realidade, como sempre, é mais complexa. O tijolo, o cimento, o aço, foram desmaterializados. O seu castelo não é de pedra, é de "cotas". E o valor destas cotas, esse número que dança no ecrã, é um milagre Hayekiano: um plebiscito diário, um voto de milhares de almas sobre o futuro daquele pedaço de concreto.
Mas este milagre é também uma maldição. Porque este novo senhor feudal não está sozinho no seu reino. Ele partilha o seu trono com milhares de outros, uma turba de pequenos fidalgos digitais, todos a seguir as profecias do mesmo oráculo: o guru de dividendos do YouTube. E quando o oráculo anuncia uma praga, a turba, em pânico, corre toda para a mesma e estreita porta de saída, e o castelo de cotas desmorona-se com a solidez de um baralho de cartas.
O nosso senhor feudal esquece-se ainda de que não é ele quem governa. Acima dele, reina absoluto o Regente do Reino, o gestor do fundo. É este homem, sentado no seu trono em São Paulo, quem decide qual feudo comprar, qual vassalo despejar, qual torre ampliar. Os pequenos cotistas são reis sem coroa, senhores que pagam um pesado tributo (a taxa de administração) ao seu regente em troca do privilégio de não terem de governar.
Eis, pois, a verdade do Fundo de Tijolo. É uma invenção brilhante e um perigoso engodo. Satisfaz o desejo ancestral de possuir terra, mas numa forma etérea e volátil. Oferece a ilusão de ser um grande proprietário, sem a maçadora realidade de ter de lidar com um cano roto, enquanto se esquece que o verdadeiro risco já não é a goteira, mas a manada de outros senhores feudais a correr para a porta.
Comentários
Postar um comentário