A Escola de Gladiadores da Faria Lima: Crónica sobre a Nova Indústria da Esperança

Quando eu julgava que o ecossistema do day trade já tinha atingido o seu apogeu de absurdo com os seus gurus, robôs e sinais milagrosos, eis que a inesgotável criatividade paulistana engendra uma nova e ainda mais perfeita máquina de moer sonhos: a "mesa proprietária".

A promessa é de uma nobreza quase romana. A corretora, na figura de um benfeitor, de um mecenas das finanças, oferece ao jovem provinciano de olhos a brilhar a oportunidade da sua vida: tornar-se um gladiador da Bolsa. Um guerreiro que lutará na grande arena do mercado, não com as suas parcas economias, mas com o capital do próprio César, do grande "dono da mesa". Que generosidade! Que filantropia!

Mas, como em toda a boa fábula, o diabo reside nos detalhes. Antes de entrar na arena, o aspirante a gladiador tem de passar por um "teste", uma "avaliação". E para ter a honra de ser testado, claro, paga uma taxa. É aqui que reside a genialidade do negócio.

Bem-vindo à Escola de Gladiadores do astuto Lanista da Faria Lima.

O Lanista, o dono da escola, é um homem de negócios brilhante, pois compreendeu uma verdade fundamental: o verdadeiro lucro não está na rara e arriscada vitória de um campeão, mas na taxa de inscrição de mil idiotas que sonham em sê-lo.

O aspirante paga, pois, para entrar na área de treinos. Dão-lhe uma espada de madeira (uma conta demo) e impõem-lhe um conjunto de regras impossíveis, desenhadas não para o treinar, mas para o fazer falhar. Dizem-lhe: "Lute contra estes leões (a volatilidade), mas não pode perder mais de duas gotas de sangue por dia (o drawdown diário). E se recuar mais de cinco passos durante todo o mês (o drawdown total), está morto".

O resultado é uma carnificina previsível. Noventa e nove por cento dos aspirantes "morrem" na areia do treino, e as suas taxas de inscrição convertem-se no lucro puro, limpo e sem risco do Lanista.

E o que acontece àquele um por cento que, por um golpe de sorte ou de talento sobre-humano, sobrevive à provação? Ah, esse recebe o grande prémio. E o prémio não é a liberdade. O prémio é o direito de se tornar o escravo campeão do seu dono.

Ele é então autorizado a lutar na arena a sério, mas ainda com as armas e o dinheiro do Lanista. Se ganhar, o Lanista fica com a fatia de leão dos lucros (80%, 90%). Se perder, o Lanista não perde nada. O gladiador arrisca o seu tempo, a sua sanidade mental e a sua reputação; o dono da escola arrisca... absolutamente nada.

É o negócio mais perfeito já concebido. É mais seguro e rentável que a própria arena. Pois o génio não está em apostar no gladiador que vence, mas em cobrar de todos os que sonham em lutar e, invariavelmente, perecem na areia do treino. Não é uma "mesa proprietária". É a industrialização da esperança, um matadouro de sonhos com uma excelente equipa de marketing.

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