A Roleta Viciada do Tesouro: Crónica sobre o o da Renda Fixa

Eu julgava já ter visto toda a sorte de prodígios e de vigarices nesta selva de pedra a que chamamos mercado financeiro. Vi porteiros a dar conselhos, alquimistas a prometer ouro e médicos a inventar doenças. Mas devo confessar a minha estupefação perante a mais recente e talvez mais genial das invenções da nossa pátria: conseguiram transformar a Renda Fixa num casino.

A Renda Fixa, meu caro, sempre foi a tia solteirona e rica da família dos investimentos. Uma senhora de virtudes inquestionáveis, de uma previsibilidade monótona, vestida de cinzento e com cheiro a naftalina. Ninguém se apaixonava por ela, mas era a ela que todos recorriam na hora do aperto, em busca de segurança e de um conselho sensato. Era o refúgio do bom-senso.

Pois os génios da Faria Lima, no seu afã de "inovação", olharam para esta respeitável matrona e tiveram uma ideia diabólica. Pegaram na velhinha, deram-lhe um copo de catuaba, vestiram-na com lantejoulas, puseram-lhe um funk a tocar e empurraram-na para o palco, a fazer a dança do "Tigrinho".

Eis o "Tigrinho da Renda Fixa". A promessa, como a de todo o charlatão, é a de unir o impossível: a segurança da tia solteirona com a emoção de uma noite no casino. É o bife com batatas fritas que emagrece, o político que só diz a verdade, a quimera, a utopia, o engodo.

O truque é de uma simplicidade que ofende. O "Tigrinho" está escondido nos detalhes do contrato, nesse hieróglifo jurídico que ninguém lê. Oferecem-lhe um título que parece um Tesouro Selic, mas que está atrelado, por artes de uma engenharia maligna, à cotação do molibdénio na bolsa de Singapura ou à fase da lua em Capricórnio. Vendem-lhe a estabilidade de um porto seguro, mas esquecem-se de avisar que o porto está construído na beira de um vulcão ativo.

A plataforma, claro, é desenhada para viciar. Luzes que piscam, notificações a cada segundo, o "lucro do dia" a saltar-lhe na cara. Não é uma ferramenta de investimento, é uma máquina de caça-níqueis. O objetivo não é fazê-lo poupar a longo prazo, mas sim induzi-lo a puxar a alavanca mais uma, e mais uma, e mais uma vez, até que a casa, como sempre, ganhe.

É a perversão final do ideal de poupança. Substitui-se a paciência pela ansiedade, a disciplina pelo vício, a prudência pela ganância. É a resposta perfeita para a alma de um povo que, em vez de plantar a árvore e esperar pelos frutos, prefere apostar tudo no jogo do tigrinho, na esperança de um milagre que lhe encha os bolsos antes do jantar.

E os espertos da Faria Lima, mais do que financistas, são os donos da banca. Fornecedores de milagres de curta duração e de ressacas de longo prazo. E o povo, feliz, faz fila para a próxima rodada.

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