Crónica de uma Batalha Silenciosa: Em Defesa da Colher contra a Voracidade da Mordida
Observo, com a curiosidade de um sociólogo de café, a paisagem gastronómica desta nossa Pauliceia. A cada esquina, abre-se, com o estrondo de uma nova revelação, mais uma "hamburgueria artesanal". Luzes de néon, música em inglês e uma legião de rapazes de barba a servir uns monstros de vaidade, umas torres de pão e carne onde se equilibram, de forma precária, compotas de bacon e maioneses de nomes exóticos. É o triunfo da modernidade, dizem eles. Eu digo que é o avanço da barbárie.
Pois esta batalha, meu caro, não é entre dois pratos. É entre duas formas de existir.
De um lado, temos o **hambúrguer**. É a comida da pressa, do indivíduo, da solidão. Come-se com as mãos, num regresso a um estado primitivo que havíamos, com esforço, superado. O seu ato definidor é a mordida, um gesto de posse, quase de violência. É uma amálgama de ingredientes em conflito, presos entre duas fatias de um pão anémico. A sua versão "gourmet" é a mais perfeita expressão da sua fraude: tenta-se disfarçar a sua alma rude com a perfumaria da trufa e o luxo postiço do queijo brie. É o prato do homem que não tem tempo a perder, e que, no processo, perde o ritual da refeição.
Do outro lado, imponente na sua modéstia, está o **arroz com feijão**.
Este não é um prato; é uma instituição. É o casamento perfeito, a mais harmoniosa e duradoura das uniões. Não nasceu da cabeça de um *chef* vaidoso, mas da sabedoria anónima e decantada de milhões de avós. É a obra-prima da ordem espontânea, uma receita que evoluiu ao longo de séculos até atingir a perfeição nutritiva e afetiva. É a prosa da nossa mesa: não arrebata, mas conforta; não surpreende, mas nunca desilude.
Come-se de garfo e colher, com a civilidade de quem sabe que a refeição é uma pausa, um momento de comunhão. Não é a comida do indivíduo apressado, mas da família reunida, da mesa partilhada, da conversa que se estende. O seu sabor não é o da novidade, é o da permanência. É o gosto de casa.
A escolha, portanto, é filosófica. O hambúrguer é a promessa do prazer imediato, ruidoso e, em última análise, solitário. É o culto da novidade pela novidade, a refeição como transação. O arroz com feijão é a celebração da rotina, da estabilidade, do laço que nos une à terra e aos nossos. É a refeição como ritual.
Um povo que troca o segundo pelo primeiro é um povo que, na sua ânsia febril de parecer cosmopolita e moderno, está a desaprender o ofício de ser feliz. Pois o hambúrguer pode até satisfazer a fome do estômago por uma hora, mas é o arroz com feijão que, silenciosamente, conforta a fome da alma por uma vida inteira.
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