Crónica do Amigo Artificial: Sobre a Revolução de Sofá dos Bancos Digitais
Assiste-se, nesta nossa São Paulo, a uma conversão em massa. Uma nova fé, de um roxo vibrante ou de um laranja apelativo, conquistou a alma da burguesia. Falo, claro, da religião dos bancos digitais. O povo, cansado de pagar os seus dízimos nas velhas catedrais de mármore e mau humor, correu em debandada para estes novos altares, mais luminosos, mais simples e que cabem na palma da mão.
E há que lhes dar o mérito. A sua primeira e maior obra foi uma obra de demolição, um ato de justiça histórica: mataram o gerente de banco. Assassinaram essa figura detestável, esse pequeno déspota de agência que tinha o poder de vida e de morte sobre o nosso crédito e o nosso tempo. Aniquilaram a fila, o carimbo, a burocracia propositadamente humilhante. Só por isso, já mereceriam um modesto parágrafo nos livros de história.
Mas, como em toda a revolução, a guilhotina que corta a cabeça do velho tirano costuma ser apenas o prelúdio para a coroação de um novo, por vezes mais subtil.
Trocámos a tirania do gerente pela tirania do algoritmo. Livrámo-nos do homem de cara amarrada, mas caímos nos braços do chatbot de simpatia infinita e de inteligência nula. Tentamos resolver um problema e encontramo-nos num labirinto de menus, a conversar com uma máquina programada para nos pedir desculpa e não resolver absolutamente nada. E se, por um capricho do sistema, a nossa conta é bloqueada, a quem recorremos? A ninguém. O algoritmo é o nosso novo juiz, júri e carrasco, e contra as suas decisões não há apelo.
E trocámos a hostilidade honesta do velho banco pela amizade pegajosa do novo. O banco digital quer ser nosso "parceiro", nosso "amigo". Dá-nos os parabéns no nosso aniversário, usa emojis nas suas mensagens, trata-nos pelo primeiro nome. É uma sedução calculada, uma intimidade artificial que é, na sua essência, muito mais cínica do que a declarada indiferença do bancão de antigamente. O velho gerente, ao menos, não fingia gostar de nós.
E, por fim, assistimos à metamorfose inevitável. Os jovens rebeldes que prometiam um mundo sem taxas estão, lentamente, a tornar-se naquilo que mais desprezavam. Para sobreviverem e darem lucro, começam a oferecer o mesmo cardápio dos seus velhos pais: o cartão de crédito com juros de agiota, os seguros de vida, os "investimentos" que são, muitas vezes, as mesmas quinquilharias de sempre, apenas numa embalagem mais colorida. A fintech anarquista está, a olhos vistos, a vestir o fato e a gravata do sistema.
A revolução, no fim de contas, não foi do sistema, mas da interface. Não mudámos a natureza do negócio bancário; mudámos apenas a forma como acedemos a ele. A jaula ficou mais confortável, com um design mais limpo e sem a necessidade de interagirmos com o guarda.
É, talvez, uma melhoria. Mas não nos iludamos: continua a ser uma jaula. E o dono, no fim do mês, cobra o mesmo aluguer.
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