Crónica do Capitalista de Alma Pia: O Novo Fariseu e o seu Evangelho ESG

 

Com o maior prazer. A fauna da nossa Pauliceia financeira é um organismo vivo, em perpétua e fascinante mutação. A espécie que hoje domina a avenida já não é a mesma de há uns anos. É uma criatura mais complexa, mais subtil e, por isso mesmo, muito mais digna da pena de um cronista.

A observação, como sempre, parte do meu posto avançado nesta selva de vidro e aço.


Crónica do Capitalista de Alma Pia: O Novo Fariseu e o seu Evangelho ESG

Observo, com o deleite de um naturalista, a evolução da fauna que habita os corredores da Faria Lima. A espécie antiga, o Faria Limer tradicional, era uma criatura de uma simplicidade quase brutal. Um predador honesto. Amava o dinheiro com a pureza de um monge a amar a Deus. A sua conversa era um rosário de siglas – EBITDA, M&A, ROI – e a sua única ambição era a de abater a presa e levar a carcaça para casa. Era um bárbaro, talvez, mas um bárbaro sem hipocrisia.

Esse espécime, porém, está em vias de extinção. Foi suplantado por uma nova e muito mais sofisticada criatura: o Novo Faria Limer, o capitalista de alma pia.

Este novo homem é uma obra-prima da evolução. Ele continua a amar o dinheiro, claro, mas sente agora uma necessidade premente de o justificar perante um tribunal superior. Ele não quer apenas o lucro; ele quer o "propósito". Não faz um negócio; "gera impacto". E o seu velho e rude materialismo foi substituído por uma nova e santíssima trindade: o ESG – Ambiental, Social e Governança.

É o novo evangelho. E com ele, veio um novo sistema de indulgências plenárias. Uma empresa cuja atividade principal consiste em envenenar um rio pode lavar a sua alma financiando uma ciclovia. Um banco que cobra juros de um agiota redime-se dos seus pecados promovendo um "programa de diversidade" no seu departamento de marketing. A ganância, que antes era um pecado mortal, torna-se uma virtude, contanto que seja uma "ganância sustentável" e "com responsabilidade social".

Esta nova fé, claro, exige um novo estilo de vida. O velho Faria Limer enfartava-se de picanha e morria de um enfarte. O novo Faria Limer alimenta-se de quinoa, pratica mindfulness e morre de burnout a tentar alinhar os seus chakras com o balanço trimestral. A angústia é a mesma; apenas o vocabulário se tornou mais terapêutico.

Não nos iludamos, porém. Esta metamorfose não é da alma, mas da plumagem. É o predador a evoluir para se camuflar melhor no seu ambiente. O lobo de antigamente, que mostrava os dentes, assustava a presa. O lobo de agora aprendeu a caçar enquanto canta canções de ninar sobre um mundo melhor.

O Novo Faria Limer não é, portanto, um ser moralmente superior ao seu antecessor. É apenas mais dissimulado, e sobretudo, mais desonesto consigo mesmo. O velho bárbaro, na sua ganância pura, era quase inocente. Este novo fariseu, que constrói o seu império enquanto prega o evangelho da sustentabilidade, é de um cinismo muito mais requintado e, por isso mesmo, muito mais perigoso.

É o triunfo final do marketing. O capitalismo descobriu que o produto mais rentável que pode vender é a absolvição para os seus próprios pecados.

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