Crónica do Coronel de Condomínio: Fantasias Rústicas no Mercado Financeiro
Julgava eu que o nosso pequeno burguês investidor, depois de se fantasiar de proprietário de shoppings e de magnata de galpões logísticos, haveria de se aquietar. Ledo engano. A sua imaginação para o autoengano é inesgotável. A nova moda que agora grassa pela Faria Lima, a nova fantasia que povoa as suas noites, é a de se tornar um barão do agronegócio. Eis que surge o Fundo Imobiliário de Tijolo Agro.
E com ele, nasce a mais sublime das nossas caricaturas nacionais: o Coronel de Condomínio.
É o nosso já conhecido "Senhor Feudal de Apartamento", mas agora de botas e chapéu. É o homem que passa os dias em escritórios com ar condicionado, mas que, ao abrir o aplicativo da corretora, sente o cheiro do capim e o calor do sol do Centro-Oeste. Ele nunca viu uma vaca de perto, a não ser no prato, mas fala do "ciclo da soja" e da "cotação do boi gordo" com a autoridade de quem acabou de voltar de uma longa cavalgada. É o "agroboy" que vive no 20º andar em Pinheiros.
Com um clique, ele inspeciona a sua "sesmaria digital": uma fração de um silo em Mato Grosso, uns alqueires de uma plantação de cana-de-açúcar e, quiçá, o direito a uma pata de uma cabeça de gado em Goiás. Ele sente-se parte do "agro, que é tech, que é pop, que é tudo". Ele é, na sua imaginação, o esteio da nação.
O que esta criatura não percebe é que o génio do Fiagro consiste precisamente em lhe vender a fazenda, mas retirar dela tudo o que é real. Venderam-lhe a propriedade, mas removeram a lama, a poeira, o suor, a praga de gafanhotos e, acima de tudo, o risco da seca. É a "fazenda do Instagram": uma imagem bucólica e limpa, que deposita um "aluguer" (o dividendo) na sua conta, sem a parte desagradável de ter de acordar de madrugada.
Esta abstração, porém, é um engodo. O investidor julga ter comprado a solidez do "tijolo", mas na verdade comprou uma aposta direta contra São Pedro. O seu património não está assente em betão, mas sim na previsão da meteorologia. A sua riqueza depende, literalmente, de chover na hora certa.
E quem gere esta vasta e etérea propriedade? Não é o Coronel, claro. É o seu Capataz de Planilha, o gestor do fundo. Sentado no seu trono na Faria Lima, este novo super-coronel, que talvez distinga uma soja de um milho apenas pela cor no gráfico de cotações, decide o destino de milhares de hectares. É a arrogância fatal do planificador urbano a ditar as regras ao campo, uma receita clássica para o desastre.
O Coronel de Condomínio acredita, do fundo da sua alma de sapatênis, que está a investir na espinha dorsal da economia brasileira. Na realidade, está apenas a participar de um casino rural, onde a roleta é o clima e a banca é o gestor do fundo.
E a única coisa que se pode garantir que será colhida, safra após safra, faça chuva ou faça sol, é a gorda taxa de administração.
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