Crónica do Inimigo Perfeito: Como o Grande César Americano se Tornou o Melhor Lacaio de Pequim**

Das janelas dos escritórios desta nossa Faria Lima, os rapazes do mercado, com os seus gráficos e as suas angústias trimestrais, olham para o Norte e veem um titã de verbo inflamado a brandir a clava do protecionismo contra o dragão chinês. Aplaudem a bravura, a "defesa do Ocidente", a mão forte que põe o comunista no seu devido lugar. É uma bela história, cheia de ruído e de fúria. E, como toda a bela história, é uma completa e redonda mentira. A verdade, essa dama esquiva e de hábitos cruéis, é que os velhos e pacientes mandarins que governam a China dos seus gabinetes em Pequim deveriam, a cada manhã, acender um incenso de gratidão à fotografia do atual presidente americano. Pois nunca, em toda a sua longa história de estratégia e de paciência, encontraram um adversário que lhes fizesse o trabalho sujo com tanto esmero e com tamanho entusiasmo. É a mais sublime das comédias de enganos. Os Estados Unidos, a nação que ergueu, com o cimento do seu capital e o sangue dos seus soldados, a ordem liberal do pós-guerra, tornaram-se o seu principal demolidor. E a China, essa ditadura milenar que aperfeiçoou o capitalismo sem nunca abraçar a liberdade, posa agora, perante o resto do mundo, como a defensora da globalização e da estabilidade. Um milagre de inversão de papéis que nem o mais imaginativo dos dramaturgos ousaria escrever. O génio involuntário do César americano reside na sua total incompreensão da natureza do poder. Ele julga que o poder é o espetáculo da bravata, a vitória numa escaramuça comercial, a humilhação pública de um aliado. Os chineses, que jogam um jogo de séculos, sabem que o verdadeiro poder reside na arquitetura do sistema. E o presidente americano, na sua fúria, está a demolir a arquitetura que o sustentava. Cada tarifa punitiva contra a Alemanha, cada insulto à NATO, cada tratado rasgado, cada aliança tradicional tratada com o desdém de um agiota a cobrar uma dívida, é um pilar do poder americano que ele próprio derruba. Pequim assiste, com um sorriso discreto, ao seu maior rival a desmantelar, gratuitamente, a rede de alianças que era a sua maior vantagem estratégica. A China nunca conseguiria, com todo o seu poderio, dividir o Ocidente com a eficácia com que o seu "inimigo" o faz. E o protecionismo, essa arma que ele brande com tanto orgulho? É uma clava que atinge, com mais força, o braço de quem a empunha. É a mais pura arrogância fatal Hayekiana: a crença de que a vontade de um homem pode ditar as regras a essa ordem espontânea, complexa e incontrolável que é o mercado global. O resultado é o esperado: o cidadão americano paga mais caro, as suas empresas perdem competitividade e a sua economia torna-se mais rígida e menos inovadora. Enquanto Washington se ocupa em construir muros e em brigar com os seus velhos amigos, Pequim, pacientemente, constrói pontes, assina tratados e ocupa o vácuo de liderança que o seu "adversário" tão generosamente lhe oferece. A China, meu caro, está a jogar Go, esse jogo de estratégia que visa cercar e controlar o território. O seu rival joga póquer, um jogo de blefes e de vitórias de curto prazo. E o maior presente que uma potência em ascensão pode receber é um inimigo que, na sua ânsia de ganhar a mão, acaba por incendiar a mesa de jogo e entregar o casino inteiro ao seu oponente.

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