Crónica do Morgado Digital: Ensaio sobre as Novas Casas Senhoriais e os Seus Mordomos
Os velhos barões do café, nesta mesma província, erguiam a sua imortalidade em pedra e argamassa. Um palacete na Avenida Paulista era o brasão da família, o testamento físico da sua fortuna. A aristocracia do nosso tempo, contudo, é mais subtil. O seu solar não é de tijolo, mas de dados; a sua fortaleza não tem ameias, mas firewalls. E o seu nome é de uma modernidade quase cínica: o Family Office.
Que invenção prodigiosa! É a reencarnação do morgado português — esse antigo privilégio que amarrava a herança ao primogénito para que a estirpe não se dissolvesse — mas agora em versão digital e global. É o sonho do burguês-rei: fundar uma dinastia, não de sangue azul, mas de capital especulativo, e garantir que a sua obra lhe sobreviva, mesmo que a sua descendência tenha a robustez de um alfinete.
O patriarca, esse rei-fundador que tantas vezes amassou a sua fortuna com a brutalidade de um conquistador, chega a uma idade em que a preocupação já não é a de ganhar mais, mas a de não perder o que já se ganhou. E então, ele cria a sua corte.
E que corte fascinante! No centro, o CEO do "Office", que é o novo Mordomo-Mor da Casa Real. Um homem de uma discrição de túmulo e uma lealdade canina, não à pessoa do patrão, mas a uma entidade abstrata e sagrada: "O Património". É ele quem gere os caprichos da família, a manutenção dos iates, a paz entre os primos.
Abaixo dele, pulula uma nobreza de toga e de planilha. Temos o Conselheiro das Leis, um jurisconsulto de olhar astuto, mestre supremo na arte de navegar os labirintos fiscais de Genebra e das Ilhas Caimão. Temos o Mestre da Moeda, o gestor dos investimentos, esse eunuco do risco cuja única função é a de fazer o tesouro crescer com a regularidade de uma planta de estufa, sem os sobressaltos da genialidade ou da loucura.
Mas a figura mais trágica e essencial desta corte é o Preceptor do Príncipe. A sua missão é a mais delicada de todas: ensinar o ofício de ser rico ao herdeiro. E aqui reside o drama que um Balzac adoraria. Porque o herdeiro, esse pobre menino nascido e criado numa redoma de ouro, protegido do mundo por este exército de mordomos e conselheiros, raramente possui a fibra, a fome, a crueldade que foram necessárias para erguer o império. O avô era um lobo; o neto é, na melhor das hipóteses, um galgo de apartamento.
Eis a suprema ironia do Family Office. Na sua ânsia de proteger a fortuna do mundo e, principalmente, da estupidez dos herdeiros, ele cria as condições perfeitas para a decadência da estirpe. Ao eliminar o risco, elimina a virtude. Ao profissionalizar a gestão da riqueza, infantiliza os seus donos.
É, portanto, a mais grandiosa e talvez fútil das construções humanas. Um monumento à ambição de um homem que deseja derrotar a entropia e o tempo. Uma fortaleza magnífica, erguida para proteger um tesouro dos bárbaros que estão do lado de fora e, mais importante ainda, dos imbecis que nasceram do lado de dentro. E só nos resta aplaudir a genialidade da arquitetura, enquanto suspeitamos, com um sorriso cínico, que os imbecis encontram sempre uma maneira de abrir os portões.
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