Do Lobo de Wall Street ao Malandro da Faria Lima: Um Ensaio sobre Duas Classes de Predadores
As minhas crónicas anteriores, ao dissecar com alguma malícia a fauna das nossas corretoras, podem ter deixado no leitor a impressão de que lidamos aqui com uma classe de vilania financeira sem paralelo no mundo. É um erro. A verdade é que os nossos operadores são, na sua maioria, amadores esforçados. Para compreender a sua real estatura, é preciso compará-los com o predador profissional, o artista da grande caça: o banqueiro da City londrina ou o seu primo de Wall Street.
O banqueiro de Wall Street é um lobo. Um predador de estirpe aristocrática. Ele não precisa do barulho, da publicidade excessiva, da conversa de "empoderamento". A sua caça é silenciosa, estratégica e de uma escala que a nossa imaginação tropical mal consegue conceber. Ele não lhe quer vender um COE; ele quer vender-lhe uma nação inteira reembalada na forma de derivativos complexos. O seu crime, quando o comete, é de uma abstração quase poética, capaz de falir um país ou despoletar uma crise mundial. Ele é um vilão de Shakespeare: a sua ambição é trágica, monumental e, a seu modo, digna de um certo e terrível respeito.
O "especialista" da corretora brasileira, por sua vez, não é um lobo. É um malandro. Um predador plebeu, um vira-lata esperto que aprendeu dois ou três truques. A sua selva não é a economia global, mas o aplicativo de telemóvel do cidadão de classe média. A sua arma não é um algoritmo de alta frequência, mas uma newsletter com "as 5 ações que vão bombar este mês".
O lobo de Wall Street devora a sua vítima com a frieza de um cálculo matemático. O malandro da Faria Lima depena a sua com um sorriso no rosto, chamando-lhe "campeão" e oferecendo-lhe um café. O primeiro pratica a predação como uma ciência exata e impessoal. O segundo, como uma arte de rua, um jogo de copinhos onde a bolinha nunca está onde se aponta.
A ambição do lobo é sistémica. Ele joga para dominar o ecossistema. A ambição do malandro é paroquial. Ele joga para garantir a sua comissão no fim do mês. O primeiro é um profissional da extração de valor em larga escala. O segundo é um varejista de quinquilharia financeira com uma margem de lucro abusiva.
E eis a conclusão desoladora. O mal que emana de Wall Street é uma força da natureza, uma tragédia de proporções épicas que nos deixa atónitos e impotentes. O mal que emana das nossas corretoras é uma farsa de feira, uma comédia de costumes que nos deixa irritados e com uma sensação de enfado.
E não sei o que é mais triste: ser devorado por um leão, num ato de majestosa e terrível força, ou ser depenado por um bando de galinhas que se julgam águias. A primeira é uma tragédia. A segunda é simplesmente ridícula.
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